Ambientado nas florestas densas do Idaho Panhandle em 1917, o filme Sonhos de Trem apresenta o trabalhador Robert Grainier (Joel Edgerton), um homem silencioso, de barba espessa e poucas palavras. Ele passa a vida migrando entre empregos manuais que o levam para longe de sua esposa, Gladys (Felicity Jones), e da filha recém-nascida.
À medida que participa da construção de pontes e trechos ferroviários, Grainier observa o surgimento de uma nova América – uma era de modernidade impulsionada por locomotivas barulhentas, túneis escavados na marra e paisagens remodeladas pelo progresso tecnológico.
Com tantos elementos fincados na realidade, os espectadores acabaram se perguntando: Sonhos de Trem é baseado em fatos reais?

Sonhos de Trem não é baseado em fatos reais
O filme da Netflix é uma adaptação do aclamado autor Denis Johnson. O longa, embora seja fiel a muitos elementos do livro, suaviza algumas nuances morais presentes na obra original.
No texto de Johnson, Grainier carrega culpa por sua participação indireta em atos violentos; no filme, ele é retratado de maneira mais romântica e contemplativa, afastado de qualquer responsabilidade direta. Essa escolha transforma o protagonista em alguém mais puro e introspectivo, reforçando a abordagem lírica adotada pela produção.
Visualmente, porém, o espírito poético de Johnson permanece intacto. A fotografia impressionante de Adolpho Veloso transforma cada quadro em um registro pictórico, enfatizando a pequenez de Grainier diante da vastidão das florestas do Noroeste americano. A trilha sonora de Bryce Dessner, marcada por tons melancólicos e grandiosos, reforça o senso de um mundo que avança sem esperar por ninguém. É um filme guiado por sensações, mais do que por diálogos.

Mais mudanças entre livro e filme
Outras mudanças mais profundas do livro para o filme envolvem temas sociopolíticos. Passagens que exploravam tensões raciais, a violência contra povos nativos e o peso moral dessas interações são suavizadas ou omitidas na versão cinematográfica.
Enquanto Johnson não tem medo de retratar Grainier com falhas, preconceitos e contradições, o diretor Clint Bentley opta por uma visão mais limpa e sentimental, priorizando o impacto visual e emocional sobre a complexidade moral.
Com seu tom poético, imagens grandiosas e uma melancolia persistente, o filme se transforma em um estudo sensível sobre o passar das eras e a incapacidade humana de acompanhá-las. Sonhos de Trem captura a essência do livro de Johnson ao retratar a vida de um homem simples transformada em reflexão universal sobre tempo, memória e a solidão inevitável diante da modernidade.